Ela estava mesmo em um daqueles dias
em que só se consegue simplesmente fingir que tudo está bem. Nada além disso,
apenas fingir, mesmo sendo um fingimento incorporado, admitidamente autêntico,
fingir que se está calado, em silêncio, e de fato estar. “Como vai? Tudo bem? –
Tudo!” Mentira. “Se soubesse como estou por dentro, parece até que nem estou.
Mas, não importa...”.
Não custava nada uma mentirinha. E
fingir já está dizendo: nunca é a coisa em si, embora se pareça perfeitamente
com ela. Por isso que fingir é demasiado cansativo. Deve ser por este motivo
que ganham tão bem os atores. Principalmente os de televisão e cinema por que
conseguem fingir para um numero muito grande de pessoas que são enganadas ao
mesmo tempo, com magnetismo, estilo, com propriedade.
Mas ela estava meio triste, estava
insípida, tinha acordado e não sabia muito bem para quê. Sorria somente com a
boca: os olhos fundos de nada ter graça. E isto não é sorriso, nem de longe se
parece com quando se está pelo menos alegre de comprar uma coisa supérflua que
se quer muito, sem se saber que se queria; encontrar alguém realmente
estimado... Mas ninguém era muito querido dentre as pessoas que insistiam em
povoar aquele dia indolente de Luana: Seu Adonias, o porteiro imigrado do
interior; Dona Matilde e as duas filhas, Samira e Silmara, a magra e a mais
magra ainda, filhas também de Seu Hilário, o pai separado que nunca aparecia ou
que pelo menos nunca se deixava ver por ali.
Aliás, na vida – e ela chegou a essa
conclusão estarrecedora justamente naquele dia – ninguém lhe era demasiadamente
prezado. Pela mãe, Domitila, divorciada de Antunes Salgueiro, o pai, Luana
sentia apenas uma espécie de sentimento técnico, uma ligação parental
obrigatória, um amor somente lógico que lhe imputava uma visita ou outra,
sempre aos sábados ou domingos, um almoço, um passeio breve, junto com a irmã,
Letícia, que também ocupava quase o mesmo status de afinidade que a genitora,
não fosse por certas confissões mútuas que trocavam raramente, quando uma delas
arranjava um namorado novo, um flerte ou coisa parecida.
Por que era um daqueles dias em que
nada parece que serve, de fato.
Nada que pudesse trazer Luana de
volta daquele começo de depressão do qual teria que fugir, com todas as forças,
por não ter tempo para isso e por não ser tão abastada para tanto desfrute.
Mesmo que tivesse dinheiro sobrando para pagar uma consulta no psicanalista,
não teria, com toda certeza, o dinheiro para as receitas e para o uso
continuado dos ansiolíticos, antidepressivos, antidistônicos, antitristeza,
antivizinhos, antisimesma...
Luana passeava de um lado para outro
dentro do apartamento que, mesmo com ela dentro, parecia desoladamente vazio.
Passeava com a xícara de café na mão. Ia até a janela, olhava as plantas nos
vasinhos, quedadas no parapeito. Passava pela frente do espelho, sem se olhar.
Pensava, pensava e nada de chegar a qualquer arremate. Talvez mesmo porque não
quisesse. De vez em quando parava em frente à mesa da cozinha e pegava uma
bolacha que mastigava com abnegação, isto porque não sabia o que querer. Se ao
menos tivesse algum projeto, algo que demandasse expectativa, algum plano de
economia para dar entrada em alguma coisa maior, um carro novo, quem sabe uma
casa própria. Mas não! Era difícil constatar que nada, absolutamente nada, a
despeito do grande vácuo que sentia, lhe fazia falta, material e meramente
falando.
Mas eram dez e quinze da manhã e
aquele dia só estava apenas começando.
Ela fazia parte da confusa parcela de
mulheres que foram tragadas pela onda de independência, feminismo e
emancipação, sem que soubessem de fato o que fazer com isto. Trazia dentro de
si constantemente – mas nunca de forma espontânea – os instintos domésticos e
primordiais inerentes ao gênero. Tratava-se de uma questão ancestral, talvez
genética, um combate do corpo contra a mente, tendo a alma como juiz.
E a procriação, a maternidade, a
perpetuação da espécie? E a delicadeza, para quê, para quem. Antigamente até os
cafajestes de carteirinha eram tidos com os melhores partidos do mundo. E hoje em dia... Hoje em dia até
mesmo os homens mais voltados ao cavalheirismo são rejeitados sumariamente,
representando mais um ícone de aprisionamento do que uma chave mestra para a
libertação dos grilhões da família de origem. Família? Era evidente que Luana
sentia, mesmo sem o saber, uma tremenda necessidade de constituir uma família,
com marido, crianças, com gato, cachorro, papagaio e tudo o mais.
E este anseio obscuro se escondia nas
entrelinhas de cada pronunciamento que fazia na frente das poucas amigas que
cultivava com parcimônia em seu pequeno universo social, quando da ocasião de
uma saída para uma conversa, um drinque ou um chá no final de tarde. Perfeito:
uma mesa com quatro ou cinco mulheres fazendo aquele discreto alarido, falando
sobre homem, moda, roupa íntima, sexo, sexo, sexo, dieta, dieta e dieta...
O interesse eventual pelas coisas da
culinária devia-se apenas ao fato de estar em voga homem ir para a cozinha,
embora os programas de televisão que mostram este tipo de coisa sejam ainda
muito parecidos com conversa de comadres também.
Não havia como escapar: “O
isolamento é a doença e o remédio desta época confusa em que vivemos”, pensava,
conformada dentro do seu invólucro de angústia e filosofia. Não que a filosofia
tenha sido inventada para descrever tão somente os pormenores da natureza feminina,
mas, que parece isto, parece.
Fazia uns seis meses que Luana não
namorava ninguém. E aquilo foi desembocar justo naquele dia em que sorrir
estava difícil. A última experiência tinha sido desastrosa: um músico
intermediário, de certo talento, mas sem carisma algum, um tanto quanto
acomodado. Ela se cansara de acompanhá-lo pelos barzinhos da cidade. No começo
era interessante, trazia-lhe um ar de poder e exclusividade, o domínio daquele
temperamento leviano e inconstante – o do músico. Depois a rotina falou mais
alto, ela nem queria mais acompanhá-lo e nem acreditava que ele pudesse continuar
sendo fiel ao suposto compromisso, já que o rapaz – pelo menos a princípio –
sempre tinha à mão qualquer mulher que quisesse conquistar com seus dotes de
menestrel, galanteador de segunda categoria. Mas o que mais pesou foi o fato de
que a relação estava mesmo saindo dispendiosa para ela. Luana sempre se
ajeitava para emprestar algum dinheiro – nunca o via de volta – para pagar
alguma conta atrasada do artista, que, sempre em altos e baixos, não conseguia
se estabilizar nem tampouco lhe transmitir o mínimo de segurança. Não passaram
mais que seis meses juntos e o envolvimento, apesar do tempo que durou, não
fora sequer sério o bastante para que ela sofresse. Ao contrário, ficou muito
aliviada com o fim da relação que morreu mesmo de morte natural, morte morrida.
Antes do namoro com Flávio Reis – o
cantor – Luana havia se ligado a um médico, ginecologista, Amâncio Siqueira,
Dr. Amâncio, um que faltava somente uns sete ou oito anos para ter idade de
poder ser seu pai. Obviamente que também não vingou. A profissão do homem
explica rapidamente os motivos pelos quais... Sim, porque “essa estória de
idade não tem nada a ver”, ela sempre repetia o bordão que, talvez por não
convencê-la, também não convencia a ninguém.
A desilusão amorosa às vezes se
parece com uma conta a pagar, uma prestação que faz sofrer e dá dor de cabeça,
rouba o sono mas da qual se sente uma ponta de saudade do carnê quando este é
quitado. Mas como tudo na vida passa se o tempo não parar, Luana estava
novamente sozinha, sem estar nem alegre nem triste. Estava cheia de um vazio
que só aprendeu a preencher através dos livros, filmes ou de uma boa musica,
quando refestelada com fones de ouvido no tapete felpudo da sua sala de estar.
Admitia ser portadora de uma extrema
inabilidade para os relacionamentos. A imperícia era nítida, sempre que tentava
se aproximar de algum homem pelo qual se interessava. No entanto, sempre teve
exatamente quem quis – e foram poucos – ainda que por pouco tempo, embora que
só para fazer sexo, mesmo quando querendo algo mais. Isto era um sinal precioso
de sua grande obstinação e empenho para com os objetos de seu querer. Mas, como
foi dito antes, Luana estava com um problema atualmente: não sabia o quê
querer. Deixou os dias e meses irem se passando até chegar à beira deste abismo
em que nesta manhã se encontrava.
Queria, por exemplo, ter estudado
veterinária e como acabou não fazendo isto, também não criava nenhum bicho,
nenhum animal de estimação, só de raiva. Queria ter conhecido a Amazônia, o Rio
Grande do Sul. Imaginava o quanto Fortaleza deveria ser linda. Salvador, o
Nordeste todo, enfim... Queria ter ido ao Pantanal, ter conhecido alguns
lugares no exterior também: Lisboa, África, Paris. O Egito? Talvez, porque não?
Essas coisas absurdas que todo mundo que não pode ter quer.
Luana estava fazendo trinta anos de
idade. Isto era o que lhe incomodava. Sabia que daqui a pouco o telefone
começaria a tocar com aqueles mesmos votos de parabéns. Mas quem lhe daria o
que realmente lhe faria feliz? Nem ela mesma sabia o quê... E por isto estava
dispersa, mínima e sem gosto. Como é que ela, que não sabia o que queria,
poderia esperar que alguém o soubesse? O que ela queria era saber o que querer,
mas, querer com afinidade, vínculo. Querer como se algo existisse para ela, só
para ela, particularmente, de uma forma distinta, única, a preencher-lhe aquele
oco. Nem mesmo um presente dos céus, se não fosse o que ela – que não sabia o
que queria – quisesse, serviria. “Porque não é só porque tal coisa vem de Deus,
diretamente do Criador, carregada pelos anjinhos mensageiros, que vai ser o que
se quer” pensava. Por exemplo: da última vez em que pediu um namorado – olha a
complicação que foi – Deus mandou-lhe foi o Flávio Reis, aquilo fora um
transtorno, isto sim. Porque o Amâncio, o Dr. Amâncio Siqueira ela nem sequer
pediu, ele apareceu de lambuja mesmo. Por isso resolveu que não queria mais
pedir nada ao Todo Poderoso, já que Ele, dentro da Sua imensa generosidade,
sempre a atendia, só para que depois ela descobrisse que não formulara o pedido
direito. Como querer algo sem a devida consciência de que depois, com o passar
do tempo, não se quereria mais. Pois não é que é mesmo assim o ser humano:
hoje, chorando porque não tem; amanhã, porque também... É sempre assim.
E foi com este pensamento
desencadeado em espiral que Luana começou a refletir sobre o que tinha – e conseqüentemente
sobre o que não tinha.
Começou a tentar se lembrar da
quantidade de querer que envolvera cada pequena ou grande coisa ao seu redor.
Chegou à conclusão de que tudo o que havia em sua casa era fruto de seu próprio
querer, coisas compradas ou arranjadas por ela mesma. E lembrou-se do êxtase
que sentiu quando viu a mesinha em pátina, montada e aparafusada em sua parede.
Os móbiles da varanda – ela sonhara semanas inteiras com aquele barulhinho que
fazem até hoje, quando sopra o vento. Pensou neles tanto, que um dia não
resistiu e foi lá, buscá-los com as próprias mãos, até poder sentir o gozo
final. O tapete felpudo também: passava em frente à loja e ficava se imaginando
deitada nele, primeiro sozinha, para inaugurá-lo, é óbvio, depois acompanhada
de um namorado, as pernas entrelaçadas, tudo pensado antes, com detalhes, em
forma de querer primordial.
Luana pensou e, ao dar-se por si,
estava valorizando cada livro em sua estante, cada roupa em seu armário, cada
utensílio, cada bobagenzinha à sua volta. Chegou mesmo a pensar que estaria
sendo terrivelmente injusta e mal agradecida com a vida que, até então, havia
já tanto lhe proporcionado.
O que queria e não tinha, talvez
fosse somente uma antecipação inteligente do seu destino, em função do que
passaria depois a não querer mais, só que sem ter que ter o trabalho de se
desfazer. Tudo perfeitamente engendrado, calculado e manipulado por uma Mente
Superior, que talvez sempre fizesse o possível para que ela, a própria Luana
não atrapalhasse.
Assim, foi começando a sentir um
conforto dentro de sua alma banalizada por tantas faltas. Foi ganhando um novo
ânimo, que vinha desta desmantelada linha de raciocínio. Sentiu-se plena: nunca
estaria satisfeita, tivesse o que tivesse, fosse o que fosse! Nunca seria
exatamente o que projetava para si própria. Aquilo era a própria Paz!
E começou a sentir o quanto era bom
não ter feito veterinária, não ter viajado – ainda – para todos aqueles
lugares. Pensou no quanto era bom e gratificante estar sozinha, sem ninguém
para ocupar esta lacuna, este espaço tão valioso em seu querer de reserva.
Sentiu vontade de dar um abraço em Seu Adonias , de convidar Samira e Silmara para um
pudim, um pedaço de bolo... Ligou para sua mãe perguntando-lhe a que horas
elas, Domitila e Letícia iriam visitá-la, para lhe desejarem feliz aniversário.
Afinal, Luana estava mesmo em um daqueles dias em que só se consegue
simplesmente fingir que tudo está bem. Tanto que de repente tudo realmente
fica, porque tudo, absolutamente tudo passa, se o tempo não parar...
Há sempre a sensação de tempo perdido aos que mantém a vida regrada. Não que planos devam ser desfeitos, ou que se deva viver ao sabor das brisas, mas a incompletude é tamanha quando a mulher, especialmente, introjeta leis, "emancipatórias" ou não, burocracias sensoriais aos excessos, e se vê incapaz de cumprir, incapaz de ser filha, mãe, vizinha, contorcendo-se em maneirismos teatrais para sobreviver.
ResponderExcluirA contemporaneidade assombra com imensa gama de responsabilidades. Aumenta-se também a coletânea de máscaras. Porém, é justo quando as Luanas se apercebem de si mesmas, que as pequenas conquistas se transformam em luxo, ou melhor, em dádiva, alívio...
Obrigada por nos fazer refletir, David, com a fluência da tua escrita, atentando para as singelezas da vida.
E olha que até a alegria fingida, a satisfação mentida, se for insistente, acaba por se concretizar, acabamos por acreditar na própria invenção da felicidade quando ela muito se faz pronunciada. Que diferença fará, no entanto? Vamos vivendo a sós com nossos intentos sonhados ou compartilhando desmoronamentos e reconstruções, tudo sob a égide da evolução.